18 de outubro de 2010

Viajante da Janela

Viajante da Janela
TEC. TEC. TEC.
Ouvi as pedrinhas serem arremessadas de encontro ao vidro da minha janela.
Essa já é a terceira vez esse mês”, eu murmurei enquanto colocava a minha cabeça debaixo do travesseiro...

TEC. TEC. TEC de novo.
Ahh”, eu levantei cansado, andando feito uma minhoca e afastei as cortinas, abri a janela e vi o Tiago encostar uma escada no peitoril e subir, logo em seguida me deparando de cara com aqueles olhos cor de mel e aquele sorriso infantil.
Eu já disse que não vou”, foi a primeira coisa que falei.
Mas!”, ele franziu o cenho e comprimiu os lábios, “Victor! Se não formos logo, as montanhas morrerão!”, sussurrou quando eu mencionei que meus pais dormiam no quarto ao lado.
De novo esse assunto das montanhas? Primeiro o que é que eu vou fazer morando numa montanha com você? Provavelmente moraríamos numa caverna comendo pedras”, falei, me sentando na ponta da cama e me enrolando na coberta.
Mas eu queria tanto...”, ele suspirou fungando o nariz.
Ele sempre faz algo com o nariz quando quer convencer alguém...

Nós tínhamos oito anos quando isso começou:
Ei, o que está fazendo na minha janela?”, perguntei quando vi o Tiago do outro lado com uma mochilinha do Batman nas costas.
Vim te buscar”, respondeu sorrindo.
E para onde vamos?”, perguntei coçando os olhos, “minha mãe sabe?”.
Shiiiu, vamos morar numa montanha!”, sorriu mostrando os dentes, “que nem as crianças daquele desenho!”.
Ficou doido?!” 

"Vamos logo!”, ele implorou, e eu imaginei como aquilo poderia ser divertido. Então fiz menção de colocar o pé na escada.
Espera!”, ele me assustou, “pega uma mochila para você”.
“Boa idéia”, falei, “mas o que eu tenho que colocar lá dentro?”
“Um biscoito, um brinquedo e uma roupa”.
“Ta”, falei arrumando tudo e calçando os chinelos e voltando para a janela.
Vai de pijama?”
“Vou”, eu respondi “o que que tem?”
“Nada, eu coloquei um para mim na mochila também”, disse sorrindo e descendo, me dando espaço para descer também.
E lá estávamos nós dois passando da esquina, com as nossas mochilinhas nas costas e batimentos aventureiros nos corações.
Ele me dizia como faríamos a casinha na árvore e que montaria num lobo. Mas quando um cachorro preto começou a nos seguir, Tiago foi o primeiro a ficar com medo. De súbito eu senti uma mãozinha gelada e escorregadia apertando a minha, e depois me abraçava o corpo todo.Eu fingia que era corajoso, porque afinal estava usando o pijama do super-homem! Mas toda a coragem mal fingida foi embora quando vimos um carro se aproximar e um cara surgir e gritar: “Ei garotos”.
Foi de um segundo que já subíamos a escada para o meu quarto, batendo a janela e nos escondendo debaixo da cama respirando feito uns loucos.
Você ficou com medo”, ele sussurrava entre as risadas baixas.
Eu?! Você ficou primeiro!”, resmunguei, saindo de lá e deitando-me no colchão.
Ow, por que deitou? Não vai desistir, vai?”, ele cruzou os braços na altura do peito.
Vou”, respondi deitando a minha cabeça no travesseiro e fechando os olhos.
Mas...”, Tiago começou a fungar o nariz.
Outro dia a gente vai”, falei rápido.
Então eu vou sozinho!”, ele se virou e abriu a janela, ameaçando colocar o pé na escada.

De repente uma tristeza invadiu o meu coração ao pensar na possibilidade do meu melhor amigo ir embora e nunca mais voltar.
Espera”, falei me levantando.
Vai comigo?”, ele sorriu.
Não”, eu o empurrei para dentro do meu quarto, fechando a janela.
Ei!”, ele reclamou.
O homem do carro está lá fora, ele vai pegar você”, foi a primeira coisa que veio a minha cabeça. E deu certo. Tiago colocou a mochilinha do Batman no canto da parede e sentou-se na ponta da minha cama.
Eu deitei e me cobri, apagando a luz do abajur.
Vai ficar aí acordado?”, perguntei.
Vou esperar ele ir embora”
“Então ta”, sussurrei abraçando a minha manta.
Eu já estava quase dormindo quando senti um peso do outro lado da cama, me virei cauteloso e vi o meu amigo já caído de sono. Coloquei a coberta nele e voltei a dormir.
Depois daquele dia ele tentou mais cinqüenta vezes a tal fuga para a montanha.


Olha”, me aproximei, segurando-o pelos braços e o puxando para dentro do meu quarto, “eu prometo que antes de completarmos sessenta anos, e olha que ainda temos dezesseis, viajaremos para as montanhas”, ele jogou a mochila verde no mesmo canto de sempre.
Está bem... Mas e se você mudar de idéia até lá?”, perguntou deitando-se na minha cama e se cobrindo.
Aí você pode me levar à força, mesmo se os meus ossos de velho se quebrarem”, falei e ele riu enquanto apagava a luz do abajur.

Com certeza até os meus sessenta anos, eu não terei mais medo do homem do carro.

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