Os mortos não precisam de internet.

Rosana subiu até o alto do morrinho e olhou todas aquelas luzes lá de baixo. O cemitério era o único lugar que conseguia acalmá-la. O...


Rosana subiu até o alto do morrinho e olhou todas aquelas luzes lá de baixo. O cemitério era o único lugar que conseguia acalmá-la. Os postes de iluminação não contornavam todo o local, na verdade só iluminavam o portão principal e o escritoriozinho do cemitério, talvez não quisessem que ninguém fosse visitar os falecidos à noite, talvez as pessoas não gostassem de andar no escuro e no silêncio, diferente de Rosana, que ouvia seus próprios batimentos cardíacos quando o vento parava de cantar. Ela fechava os olhos e depois os abria, de novo aquelas luzes da cidade apareciam como pontinhos brilhantes - vaga-lumes vermelhos, amarelos, azuis. Lá em cima nem o cheiro das pessoas vivas conseguia alcançá-la, o vento não trazia nenhum odor, o vento era só uma rajada de vozes cantando e desembaraçando o cabelo da garota. Os mortos também não exalavam cheiro algum, o único perfume lá do morro vinha da grama e das flores. O cemitério é um grande jardim humano, pensou Rosana, ela sentia vontade de arrumar cada espaçozinho daquele lugar meio abandonado, reconstruir todas as lápides quebradas, plantar mais árvores, alimentar os gatinhos que ali moravam, entretanto o que ela poderia fazer para os mortos? eram pessoas que já não respiravam e não contemplariam o lugar aonde passaram a morar, tampouco suas famílias os visitavam.
Rosana não acreditava que algum dia eles se levantariam, é... tudo aquilo estava à merce do tempo, algum dia os ossos já não existirão, nem a imponente mata do cemitério vive para sempre. A garota foi andando ladeira abaixo e avistou uma enorme árvore sem folhas, Rosana correu até ela e com um estilete, que guardava no bolso da jaqueta, fez um coração no tronco. Imaginou que na primavera muitos pássaros construiriam ninhos em seus galhos verdes, ela mesma queria ser enterrada ali quando morresse (tomara que a árvore dure bastante tempo, pensou). Gostou da ideia de dormir para sempre nos braços da árvore.

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5 comentários

  1. Gosto desse jeito de melancolia, tipo amorfo ou apático. Muito bom, parabéns.

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  2. Gostei desse busca de paz da personagem. Curti seus pensamentos,Bruna Morgan. E seu blog também. Sinto que tenho que vir aqui mais vezes,algo me diz que temos algumas excêntricidades em comum. Seguindo!

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  3. Ótimo texto, Bruna!
    Sombrio, reflexivo, intenso!
    Grande abraço, sucesso e grato pela visita!

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  4. "Eu cantaria a mais bela canção de ninar ao caminhar nos teus pensamentos." Muito belo pessoa!

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;D