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29 de abril de 2014

Minha Garota

Mandei esse texto para o Desnamorados!


Ela debruçava-se sobre a pia tentando tirar a cor azul do cabelo.
Seria mais fácil se tirasse a tinta no chuveiro, mas o velho aparelho estava quebrado e era preciso comprar outro imediatamente.
Agia como se eu não estivesse ali sentado na poltrona velha e surrada segurando uma garrafa de soda de laranja. Como se eu fosse mais um de seus móveis antiquados, e isso me irritava.
Franz Ferdinand cantava em nosso apartamento através de um disco velho. Faltava pouco para a vizinha reclamar que a música estava muito alta, embora a mesma não atravessasse a porta. A velha com certeza usava um copo de vidro para ouvir os sons que vinham do nosso apartamento apenas para nos encher a paciência. Era sábado de manhã e eu só queria descansar, apenas queria estar na praia, mas a minha garota havia cismado em pintar o cabelo logo naquela manhã, e a única coisa que eu podia fazer era esperar.

Eu continuei naquela poltrona encaroçada, com minha garrafa quase no fim e com meu estômago doendo, só para vê-la andando de um lado para o outro feliz com sua nova cor de cabelo, como se fosse a coisa mais legal do mundo, perguntando se ficou bonita. E eu responderia que sim, que é a mulher mais bonita do mundo, mesmo sendo louca e tendo o cabelo pintado de verde.

11 de abril de 2012

Os peixes do rio


Berenice sempre me perguntava o motivo de eu passar tantas noites escrevendo sem dar sequer uma pausa, e porque eu teimava em pegar do armário a minha velha máquina de escrever, constatando todos os dias que ela já havia perdido sua tinta, e que atualmente a mesma não se fabrica mais.
Uma vez eu finalmente disse à Berenice que há um rio dentro de mim. A água é densa, e lá dentro há monstros grandes e feios que vivem submersos junto com os peixes.
Berenice perguntou se os peixes são dourados, mas eu respondi que não, os peixes não são dourados, eles são vermelhos com pintinhas verdes e sabem voar. Voar?! Ela me perguntou sobressaltada. Sim, eu respondi, as nadadeiras são as suas asas, e eles nadam pelo rio denso, fazendo força para voar, porque aquela água é pegajosa e preta, não dá para enxergar nada lá embaixo.
E como eles vivem? Ela me perguntou. Ora, eu respondi, eles morrem, minha Berenice, oh! não chore. É culpa dos monstros, eles precisam se alimentar... E quando eu escrevo, esses monstros se transformam em histórias. Quando um monstro é muito mau, a história fica boa e vira comédia, ou vira romance, as coisas são desse jeito no rio, os peixes demoram a nascer, e nessas horas eu penso em desistir de tudo, de fugir e de tentar secar o rio de alguma maneira, pois eu não consigo dar conta disso, menina.
Mas agora você não sente mais vontade de fugir, certo? Berenice perguntou. Não, eu respondi, agora eu tenho você, minha querida.

13 de março de 2012

Deixem o Zé em paz!

Famoso sou eu.
Em cada canto,
Em cada verso
Meu nome dança
“Oh, Zé! Oh, Zé!”

Na boca de poetas,
Em letreiro de ônibus,
Na fofoca do povo,
Na boca de escritores anônimos.

Até pseudo-intelectuais me chamam,
Para falar de coisas que eu não perguntei,
Não dou à mínima e depois reclamam
Se eu jogo-lhes na cara o que sei.
Ora, mas não imaginam o nó de gravata que merecem!
Apenas Lispector e C. F. Abreu conhecem.

Pouca gente sabe do meu amigo,
Que o ceifeiro já deu cabo,
Drummond achou que eu tivesse morrido.
Morri e revivi com essa gente me invocando feito diabo.

Virei íntimo de tanta gente,
Sem vontade alguma,
Agora de pessoas atrás tenho uma enchente,
Tempo bom era quando eu vivia na penumbra.

Se me contam segredos,
Se choram em meu ombro
Ou se me esbofeteiam.
Riem comigo
E choram
E gritam.

Chamam meu nome
Centenas de vezes mais.
“Oh, Zé! Oh, Zé!”.

Acordam-me na madrugada,
Não escutam nem o que eu digo,
Não me deixam lavar a cara,
Só querem falar em meu ouvido.

Da paciência o poeta me suga,
Cansei desse papo de coração alheio,
Prefiro que em mim nasça verruga,
Bato o pé, já disse que não sou conselheiro.
Essa gente só me abusa,
Colocam meu nome em cada texto,
Do nada virei musa.

Quero ver quando eu for ao cartório,
E num pé só eu voltar,
Deixo que façam um velório,
Pois nada poético meu novo nome será!

9 de março de 2012

Alguns dias são mais chatos que outros.



Do outro lado da janela o sol parecia mais brilhante e mais quente. Eu o vi através das persianas e fiquei feliz em saber que hoje eu não precisava sair de casa.
Lá fora o cheiro de bacon queimado vagava pelo ar, quando na verdade era cheiro de gente torrada. O sol estava mesmo muito forte.
Eu continuava deitado no sofá de frente para as persianas, alguns filetes de luz atravessavam e caíam repousando em minha barriga. Talvez eu devesse varrer o chão ou fazer a barba, mas estava cansado demais para me levantar.
Eu só queria sentir o cheiro de morango que Sara deixava no ar... Mas ela não aparecia para me ver há meses e também não atendia as minhas ligações. Tentei puxar em minha mente o cheiro dela, mas apenas senti cheiro de bacon queimado.

6 de março de 2012

Batatas-frias


Gabriel tamborilava impaciente os dedos no teclado de seu notebook. Não sabia o que escrever, precisava mandar um artigo para o jornal local, senão ficaria sem o dinheiro para pagar o aluguel de seu apartamento, e desse jeito ficaria devendo mais três meses. Era ruim ter de subir o elevador torcendo para que a senhoria não aparecesse no próximo andar. Entretanto, não sabia o que escrever, sentia-se inválido olhando as tantas letras desenhadas no teclado e nada em sua mente.
Observou rapidamente em volta esperando a garçonete chegar com suas batatas-fritas, mas ela ainda se demorava na mesa vizinha. Toda aquela tensão estava matando-o, e uma vozinha que vinha de dentro dele dizia que as batatas chegariam moles e frias.
Gabriel guardou o notebook na mochila e ficou esperando com os cotovelos sobre a mesa. Era um bocado estranho a vida que tinha: morava num apartamento ruim, seu salário era um fiasco, não tinha amigos e mais ninguém para passar o tempo (tinha o Douglas, um vizinho chato e espinhento, mas ele não contava na lista porque Gabriel nunca gostou da presença dele), não tinha sequer um peixe ou um gato.
Continuou com seus olhos observando o lugar. O porteiro tinha uma cara azeda, comprida demais e um nariz muito fino. Talvez fosse porque ele desejava tanto sumir dali, que seu rosto estava desaparecendo aos poucos. Tsc, besteira. A garçonete era lerda e meio desengonçada sempre parecendo que vai derrubar a bandeja.
A única coisa boa de se olhar naquela lanchonete era uma moça que bebia um frappuccino na mesa da frente. Ela não tinha visto Gabriel em momento algum, e parecia muito concentrada num livro. Provavelmente se tratava daqueles romances lixos que se encontram aos montes por aí vendendo, alguma coisa com um mocinho e uma mocinha, etc.
Gabriel ficou meio enojado, ela perdia alguns pontos por causa do livro, mas ainda era uma coisa boa de se olhar, seu rosto era redondo e tinha uma boca pequena pintada de rosa (o batom deixava marcas no canudo cada vez que ela bebia o frappuccino). A moça havia permanecido imóvel todo aquele momento, até que se mexeu por dois segundos, iluminando os olhos de Gabriel. "Hermann Hesse". Talvez ela seja alguém que valha a pena conhecer.
A moça começou a tamborilar os dedos na mesa e ele pôde notar que ela usava fones de ouvido (antes os cabelos os escondiam), era ritmado e parecia que ela imitava discretamente o som de uma bateria.
Os olhos dele se iluminaram mais. E se ele se aproximasse perguntando qual banda ela estava escutando? Ou perguntando qual era o livro que estava lendo?

Gabriel levantou-se e andou em direção ao banheiro, nunca havia se preocupado com isso antes, mas o seu cabelo estava emaranhado e desleixado. Passou as mãos pelos fios, e quando achou que estava melhor, pôs-se a andar em direção às mesas.
A primeira coisa que notou ao voltar foram as batatas-fritas. Todas douradas e quentes (dava para ver a fumaça). Ele havia se enganado quanto ao lugar.
A segunda coisa é que a moça ainda estava ali, mas ela podia esperar, Gabriel estava com bastante fome para conversar.
Foi quando ele pegou a primeira batata que a garçonete apareceu pedindo desculpas (e chamando-o de senhor!). Aquela não era a porção dele. Aquelas batatas lindas e douradas! Não, a porção dele foi posta na mesa segundos depois. Feias e murchas, provavelmente mornas e sem sal. Eram amareladas e suas pontas eram marrons. Gabriel não sabia como reagir, pois todos os seus pensamentos se desligaram com a rebelião que seu estômago fez. Não comeria aquela porcaria!
Levantou-se sem paciência e falaria umas poucas e boas (frase velha, mas ele não sabia o que pensar na hora) ao gerente daquela droga de lanchonete, mas mudou de ideia quando a moça andou em sua direção e propôs que dividissem as batatas-fritas.

17 de fevereiro de 2012

Are You Gonna Be My Girl?



Meio-dia e o Centro do Rio de Janeiro parecia pegar fogo.
O cheiro de mijo ficou mais forte depois que o calor passou a ferver as poças de urina espalhadas pela cidade.
Os executivos atravessavam a passos largos a rua, entrando imediatamente em seus carros com ar condicionado, e os vendedores de picolé ganhavam uma boa grana.
Eu tentava pensar que o calor era psicológico, e me imaginava no polo norte enquanto andava o mais rápido que podia até meu trabalho.
Não almocei direito na hora do meu intervalo, e aquele deveria ser o dia mais quente da história.
Trabalhava como caixa numa loja de discos que para a minha felicidade estava com um novo ar condicionado.
Entrei na loja e em poucos minutos meu suor começou secar e me senti a salvo depois de encarar o sol de quase 50ºC lá de fora.

A música ambiente era um hit bem famoso de uma mulher que não-sei-como vendeu muitos cds e a batida era enjoada. Talvez eu devesse mudar e colocar algum disco antigo, algo bom.
Andei até a prateleira dos anos 80 quando uma garota de cabelo azul entrou na loja, dirigindo-se rapidamente até a sessão de rock alternativo.

Eu voltei ao caixa e fiquei seguindo-a com os olhos.
Ela era bem bonita e parecia indecisa com relação a qual disco levar.
Eu nem havia notado que a música anterior tinha chegado ao fim, e eu tinha de escolher outra, porque não é normal uma loja de discos não tocar discos. Mas eu não tive tempo, pois a garota chegou ao balcão com um sorriso enorme.

- Jet? - eu soltei uma breve risada, como se entendesse muito de música.
- Sim - ela fechou o rosto - há algum problema nisso?
- Não, me desculpa - eu me concentrei em pegar o dinheiro e colocar o disco numa sacola de plástico - aqui está o seu troco, tenha uma boa tarde.
Ela então saiu da loja e foi embora.

Eu pensei que a garota nunca mais fosse aparecer, mas na semana seguinte ela foi até a loja e escolheu um disco do The Vines.

- Não vai rir? - ela perguntou quando estava quase saindo da loja.
- Não - eu respondi constrangido.
- Que bom, porque não era eu quem estava na sessão de música brega - sorriu e foi embora.

"Música brega?!", eu pensei, olhando na direção de onde eu estava dias antes quando queria ficar na frente do ar condicionado. E notei que acidentalmente eu segurava um disco do Reginaldo Rossi.






(quer saber como eles ficaram depois? clique aqui ;p)

18 de janeiro de 2012

Bang, bang, I'm dead.


Era carnaval, e eu nunca gostei dessa festa. Faz calor, as músicas são ruins e a rua vira um inferno.
Eu estava na casa dos meus amigos e as únicas coisas que a geladeira possuía eram garrafas de vinho, latas de cerveja e macarrão. Passamos cinco dias assim.

No terceiro dia vi meus amigos entrarem juntos ao banheiro, eles sorriam e carregavam saquinhos nas mãos. Eu os segui e apenas ouvi o trinco da porta sendo virada à chave atrás de mim.
O banheiro era enorme e bonito, muito bonito. Os azulejos da parede eram bem pretos e havia uma prateleira apenas para os perfumes.
Meus amigos estavam reunidos em frente à bancada da pia, que era grande e cinza antes de derramarem um pó branco naquele mármore. Fizeram linhas grossas da parede até a beirada, o branco quase caia ao chão.
Eu olhei assustado, mas não deixei que me vissem tremer as calças.
As linhas pareciam lacraias gordas e albinas, pareciam nunca acabar.
Um deles me virou e disse: "você não vai cheirar isso". E eu respondi: "se eu quisesse usar, não seria você que me impediria. Aliás, eu não quero essa porcaria".

Eu me conservava ao lado, apoiando as costas na parede. Era extremamente bonito aos treze anos, meu cabelo era bem preto e liso, usava um penteado repicado e meus olhos tinham um ar de desinteressado. Minha calça estava rasgada e minhas sobrancelhas sempre se mantinham arqueadas de lado, como se algo sempre me incomodasse.
As garotas sorriram para mim pelo jeito como eu respondi, antes de aproximarem o nariz ao pó que estava na bancada.
É igual aos filmes, eles imitam as cenas, e as cenas são fiéis a eles. O papel enrolado era a ponte até às narinas que fungavam e ficavam rosadas.
Eu olhava com nojo, com ar de superioridade. "Eles são tão otários", mas eu era o otário. Por que eu estava naquele lugar?!
Depois de alguns minutos todos saíram do banheiro, inclusive eu.

Andei até a cozinha e cuspi no chão, "que diabos, não sei nem voltar pra casa. Por que raios eu concordei em vir? Eu não sei nem o endereço", pensei, colocando as mãos nos bolsos da calça e chutando uma cadeira.

Eu passei a tarde inteira bebendo vinho com uma garota na varanda, olhando para a paisagem e pensando no que fazer nos próximos dois dias naquela casa. Gabriella era bonita, seu cabelo também era preto, e sua boca era grande e comprida horizontalmente, sorriso bonito, sorria com os lábios e com os olhos, mas eu tentava não olhar para o seu rosto e ver que estava chapada.

À noite, porém, eu estava sozinho no quarto de hóspedes, enquanto meus amigos bebiam cerveja barata na sala.
O sono não chegava. Eu fiquei deitado com o peito contra o colchão e com a cabeça apoiada nos braços.

Até que um cara entrou no meu quarto e sentou-se ao pé da cama, ele é quem havia comprado a droga. Era barrigudo e tinha cabelo crespo, seus olhos eram amarelados e não brancos, sua pele era bem negra e não usava camisa.
Ele falou que minha garota não havia voltado àquela noite, disse que ela saiu bêbada pela porta e não voltou.
Eu não ligava, ela não era minha garota, não mais, não queria mais aquela guria.

Ele se aproximou de mim e tocou em meu cabelo, de modo que eu pulei da cama e fui para o outro lado e disse bem alto que não tocasse em mim.
Ele sorriu e perguntou: "por que você tá aqui?". Eu não entendi e não respondi. Então ele disse: "esse lugar não é pra você". Eu perguntei: "o que?", ele disse: "você não é como eles".
Eu fiquei parado e mandei que ele saísse do quarto, e ele se foi, dizendo que eu não deveria estar ali, e fechou a porta.
Eu fiquei sentado na cama e no escuro. Ele tinha razão, aquele não era o meu lugar.

21 de novembro de 2011

Alguns trechos


Primeiro eu quero agradecer pelos comentários no último post. Eu precisava desabafar e vocês me apoiaram bastante, obrigada :D
Agora aos trechos. Bem, eu sou apaixonada por fragmentos de textos, então vou compartilhar no blog algumas partes de histórias que não postei aqui. Eles não se interligam, então pode ser que não entendam muito bem.



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